O gosto dos outros

É óbvio que, qualquer que seja a nossa essência, existamos apenas através do olhar dos outros. Dizer o contrário seria simplesmente uma prova de autossuficiência dissimulando uma falta de comunicação com você mesmo.

O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. Quando alguém lhe quer bem ou mal, ele presta atenção para você, e é essa atenção que lhe assegura da validade da sua existência. Por outro lado, a indiferença nos afeta 100 vezes mais porque, sem feedback, sem eco, você não existe e aí, dentro de você, no mais profundo de você, algo fica se rasgando cada vez mais

Ser reconhecido significa dizer “eu existo”; então por que nos alheamos do olhar dos outros?

Por que usamos o pretexto de uma vida agitada, as preocupações e outras desculpas para não nos abrirmos para o outro, para o desconhecido que provavelmente está no mesmo estado de isolamento?

A lógica responderá que queremos manter nossa privacidade, controlar nosso ambiente, controlar as situações e, talvez, evitar ficar poluído pelas preocupações do outro.

É verdade, mas está errado.

O que seria a vida sem o encontro de um olhar, sem um sorriso, um aperto de mão, um abraço? Onde estariam os olhares cúmplices, os sorrisos brincalhões, a maciez, o calor e a firmeza de uma mão?

Todos nós queremos descobrir o belo, o novo, o inesperado, o maravilhoso e talvez o fantástico.

Será que somos tão pobres de nós mesmos para não ousar andar com a cabeça erguida e o passo firme de um ser confiante em suas capacidades? Será que o peso do seu passado é tão grande para baixar tanto a cabeça ou se perder nos seus pensamentos?

Se você tem filhos, lembre-se dos seus primeiros passos. Quão orgulhoso você ficou em ver um serzinho rastejante erguer-se para andar como você! É verdade, ele sempre levantava a cabeça para olhar para você, mas com majestade você se colocava ao seu nível para que ele andasse de cabeça reta.

Todos os dias, eu olho com espanto para todos esses humanos que não se atrevem a abrir o canal da comunicação por causa do medo, do hábito ou da cultura.

Quem somos para temer tanto o olhar dos outros? Isso indica, intrinsecamente, que os outros são os nossos espelhos. Sem eles, não tem como entender o que somos e o que queremos nos tornarmos ou ser. Sem eles, não somos nada.

É verdade que os jovens têm contornado o problema com os seus celulares, suas mensagens eletrônicas, seus blogs, seus chats. Eles querem se comunicar para existir, mas o olhar direto ainda é difícil para eles aguentarem, porque muitos adultos se aposentaram em torres de marfim, em casa, dentro do seu casal ou da família.

Hajamos o gosto dos outros, hajamos o desejo de saborear a aura dos outros, hajamos a vontade de descobrir o belo nos outros, hajamos a intenção de descobrir o divino no mais profundo dos outros.

Antes de se tornarem uma joia delicadamente criada e cinzelada por um artista, o ouro e os diamantes estavam na lama, totalmente irreconhecíveis. Pessoas humildes os extraíram porque eles conheciam o verdadeiro valor desses materiais. O sonho deles era ficar rico e alguns tiveram sucesso.

É o mesmo para o ser humano. Ele é uma caverna do Ali Baba que se ignora. Há dentro dele pepitas de muito valor, porém no meio da lama.

Então, primeiro, usando o olhar do conhecimento como um laser, você examinará seu próximo porque você sabe que ele possui algo único que você pode descobrir, e em segundo lugar, você vai peneirar a lama com o filtro do coração afim de isolar essa riqueza muito bem escondida.

E como uma joia tão brilhante quanto um sol, ele lhe enviará sua imagem com clareza e precisão, porque a riqueza que você descobriu nele já estava em você!

Você só vai saber o que você vale ao descobrir o que os outros valem. Então, se você quer se enriquecer e especialmente descobrir o saldo da sua conta bancária interna, vá até os outros e dê a eles a atenção que eles precisam. Em troca, você receberá alguns cheques muito gratificantes, em uma moeda que é universalmente reconhecida e aceitada (garantida sem cheques voadores!).

Então, antes de querer se tornar uma pessoa muito empática, comece por ser uma pessoa simpática; o resto chegará naturalmente.

Laurent DUREAU

Artigo originalmente publicado no blog Booster Votre Influence no dia 1º de dezembro 2006 e atualizado no blog 345D no dia 19 de abril 2012. Traduzido do francês.

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